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Isquemia mesentérica aguda

Por Parswa Ansari, MD, Program Director, Department of Surgery, Lenox Hill Hospital, New York

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Isquemia mesentérica aguda consiste na interrupção do fluxo sanguíneo intestinal secundário a embolia, trombose ou estado de baixo fluxo. Causa liberação de mediadores, inflamação e, por fim, infarto. A dor abdominal é desproporcional aos achados no exame físico. O diagnóstico precoce é difícil, mas a angiografia e a laparotomia exploradora têm sido os métodos mais sensíveis. Outras modalidades de imagem geralmente só se alteram em fases mais tardias da doença. O tratamento consiste em embolectomia, revascularização dos segmentos viáveis ou ressecção. Algumas vezes, a terapia com vasodilatadores é efetiva. A mortalidade é alta.

Fisiopatologia

A mucosa intestinal tem alto índice metabólico e, em consequência, necessita de fluxo sanguíneo elevado (normalmente recebendo 20 a 25% do débito cardíaco), tornando-a muito sensível aos efeitos de uma perfusão diminuída. A isquemia provoca rompimento da barreira mucosa, permitindo a liberação de bactérias, toxinas e mediadores vasoativos, que por sua vez causam depressão miocárdica, resposta sistêmica inflamatória sindrômica ( Sepse e choque séptico), falência de múltiplos órgãos e morte. A liberação de mediadores pode ocorrer mesmo antes do infarto completo. A necrose pode ocorrer tão rápido quanto 10 a 12 h depois do início dos sintomas.

Etiologia

Os vasos mais calibrosos irrigam o conteúdo abdominal: tronco celíaco, artéria mesentérica superior (AMS) e artéria mesentérica inferior (AMI). O tronco celíaco supre esôfago, estômago, duodeno proximal, fígado, vesícula biliar, pâncreas e baço. A AMS irriga duodeno distal, jejuno, íleo e cólon até a flexura esplênica. A AMI supre os cólons descendente e sigmoide e o reto. Vasos colaterais são abundantes no estômago, duodeno e reto. Essas áreas raramente desenvolvem isquemia. A flexura esplênica encontra-se entre as áreas da AMS e da AMI, sendo particularmente vulnerável à isquemia.

O fluxo de sangue mesentérico pode ser prejudicado tanto pelo lado arterial quanto pelo venoso. Em geral, pacientes com mais 50 anos de idade estão em maior risco e apresentam os tipos de oclusão e fatores de risco mostrados na Causas de isquemia mesentérica aguda. Entretanto, muitos pacientes não têm fatores de risco identificáveis.

Causas de isquemia mesentérica aguda

Tipo de oclusão

Fatores de risco

Êmbolo arterial (> 40%)

Doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, doença cardíaca valvar, fibrilação atrial e história de embolia arterial

Trombose arterial (30%)

Aterosclerose generalizada

Trombose venosa (15%)

Estados de hipercoagulação, condições inflamatórias (p. ex., pancreatite, diverticulite), trauma, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, hipertensão portal, doença da descompressão

Isquemia não oclusiva (15%)

Estados de baixo fluxo (p. ex., insuficiência cardíaca, choque, bypass cardiopulmonar), vasoconstrição esplâncnica (p. ex., vasopressores, cocaína)

Sinais e sintomas

O marcador mais precoce da isquemia mesentérica é a dor intensa, mas com alterações mínimas no exame físico. O abdome continua flácido, com pouca ou nenhuma resistência. Discreta taquicardia pode estar presente. Mais tarde, com o desenvolvimento de necrose, aparecem sinais de peritonite, com grande dor à palpação, sinais de defesa, rigidez e ausência de ruídos hidroaéreos. As fezes podem ser positivas para heme (aumentando à medida que a isquemia progride). Os sinais mais frequentes de choque aparecem e costumam ser seguidos de morte.

A dor de início súbito sugere embolia arterial, mas não a diagnóstica, ao passo que o quadro mais gradual é típico de trombose venosa. Pacientes com história de desconforto abdominal pós-prandial (que sugere angina intestinal) podem ter trombose arterial.

Diagnóstico

  • Diagnóstico clínico é mais importante que os exames diagnósticos

  • Angiografia mesentérica ou tomografia computadorizada angiográfica se o diagnóstico não estiver claro

O diagnóstico precoce é particularmente importante, pois a mortalidade aumenta de modo significativo quando o infarto intestinal ocorre. A isquemia mesentérica deve ser considerada em qualquer paciente com mais de 50 anos de idade com fatores de risco conhecidos ou condições predisponentes e que desenvolve dor abdominal intensa e de início súbito.

Pacientes com sinais claros de irritação peritoneal devem ser encaminhados diretamente à laparotomia, tanto para diagnóstico quanto para tratamento. Para outros pacientes, angiografia mesentérica seletiva ou tomografia computadorizada angiográfica é o procedimento diagnóstico de escolha Outros estudos de imagem e marcadores séricos podem mostrar anormalidades, mas carecem de sensibilidade e especificidade no início da doença, justamente quando o diagnóstico é crítico. Radiografia abdominal plana é útil sobretudo para descartar outras causas de dor (p. ex., víscera perfurada), embora seja possível notar gás venoso portal ou pneumatose intestinal posteriormente. Esses achados também aparecem na TC, a qual pode visualizar diretamente eventual oclusão vascular – com acurácia maior na fase venosa. A ultrassonografia com Doppler pode identificar oclusão arterial, mas sua sensibilidade é baixa. A RNM tem boa acurácia na obstrução vascular proximal. Marcadores séricos (p. ex., creatina fosfoquinase e lactato) elevam-se na presença de necrose, mas são inespecíficos e aparecem tardiamente. Ácidos graxos intestinais ligando proteínas no soro podem se mostrar valiosas no futuro como marcadores precoces.

Prognóstico

Se o diagnóstico e o tratamento forem feitos antes de aparecer a necrose, a mortalidade é baixa. Após o infarto intestinal, a mortalidade é de 70 a 90%. Por este motivo, o diagnóstico clínico de isquemia mesentérica deve preceder os exames diagnósticos, que podem atrasar o tratamento.

Tratamento

  • Cirúrgico: Embolectomia, revascularização, com ou sem ressecção intestinal

  • Angiográfico: Vasodilatadores ou trombólise

  • Anticoagulação de longo prazo ou terapia antiagregante

Se o diagnóstico for feito durante laparotomia exploradora, as opções são embolectomia cirúrgica, revascularização ou ressecção. Uma segunda análise da laparotomia pode ser necessária para reavaliar a viabilidade de áreas questionáveis do intestino. Se o diagnóstico for feito por angiografia, a infusão de vasodilatador, como a papaverina através de cateter de angiografia, pode melhorar a sobrevida tanto na isquemia oclusiva quanto na não oclusiva. A papaverina é útil mesmo quando a intervenção cirúrgica está planejada e algumas vezes é administrada durante e após a cirurgia. Além disso, para oclusão arterial, pode-se realizar trombólise ou embolectomia cirúrgica. O desenvolvimento de irritação peritoneal a qualquer momento durante a avaliação sugere a necessidade de cirurgia imediata. Trombose venosa mesentérica sem sinais de peritonite pode ser tratada com papaverina, seguida de anticoagulação com heparina e varfarina.

Pacientes com embolia arterial ou trombose venosa necessitam de anticoagulação por períodos prolongados com varfarina. Pacientes com isquemia não oclusiva podem ser tratados com antiagregantes plaquetários.

Pontos-chave

  • Diagnóstico precoce é fundamental porque a mortalidade aumenta significativamente com a ocorrência de infarto intestinal.

  • Inicialmente, a dor é intensa, mas os achados físicos são mínimos.

  • Exploração cirúrgica é, muitas vezes, a melhor medida diagnóstica para pacientes com achados peritoneais evidentes.

  • Para outros pacientes, realiza-se angiografia mesentérica ou tomografia computadorizada angiográfica.

  • As opções de tratamento incluem embolectomia, revascularização e ressecção.

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