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Hipertireoidismo

(Tireotoxicose)

Por Jerome M. Hershman, MD

OBS.:
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O hipertireoidismo caracteriza-se por hipermetabolismo e concentrações elevadas de hormônios tireoidianos livres. Os sintomas são muitos e incluem taquicardia, fadiga, perda de peso, nervosismo e tremor. O diagnóstico é clínico e por exames de função tireoidiana. O tratamento depende da causa.

O hipertireoidismo pode ser classificado com base na captação de I131 e presença ou ausência de estimuladores de tireoide circulantes (ver Resultados de exames laboratoriais da função tireoidiana em várias situações clínicas).

Etiologia

O hipertireoidismo pode resultar de aumento de síntese e secreção de hormônios tireoidianos (T3 e T4), causado por estimulantes tireoidianos no sangue ou por hiperfunção autônoma da tireoide. Também pode resultar da liberação excessiva de hormônios tireoidianos da glândula tireoide, sem aumento de síntese. Essa liberação é comumente causada por alterações destrutivas, nos vários tipos de tireoidites. Várias síndromes clínicas também causam hipertireoidismo.

As causas mais comuns são

  • Doença de Graves

  • Tireoidite

  • Bócio

  • Nódulo "quente" único, autônomo e hiperfuncionante

A doença de Graves (bócio difuso tóxico) é a causa mais comum de hipertireoidismo, caracterizando-se por hipertireoidismo e um ou mais dos seguintes achados:

  • Bócio

  • Exoftalmo

  • Dermopatia infiltrativa

A doença de Graves é causada por autoanticorpos contra o receptor de TSH; diferente da maioria dos anticorpos, que são inibitórios, este autoanticorpo é estimulador, promovendo síntese contínua e secreção excessiva de T4 e T3. A doença de Graves (assim como a tireoidite de Hashimoto) às vezes ocorre com outras doenças autoimunes, incluindo diabetes tipo 1, vitiligo, cabelos prematuramente grisalhos, anemia perniciosa, doenças do tecido conjuntivo e síndrome de deficiência poliglandular. A patogênese da oftalmopatia infiltrativa (responsável pelo exoftalmo na doença de Graves) é mal compreendida, mas pode ser resultado de imunoglobulinas dirigidas a antígenos específicos na gordura e fibroblastos orbitais, resultando em secreção de citocinas pró-inflamatórias, inflamação e acúmulo de glicosaminoglicanos. Também pode haver oftalmopatia antes do início do hipertireoidismo ou mesmo 20 anos depois do seu surgimento, que piora ou melhora independentemente da evolução clínica do hipertireoidismo. Chama-se de doença de Graves eutireoidiana a oftalmopatia típica observada na presença de função tireoidiana normal.

A secreção inapropriada de TSH é uma causa rara. Pacientes com hipertireoidismo apresentam concentrações de TSH indetectáveis, exceto na presença de adenoma hipofisário secretor de TSH ou resistência hipofisária a hormônios tireoidianos. As concentrações de TSH são elevadas e o TSH produzido em ambas as doenças é biologicamente mais ativo que o TSH normal. Aumento da subunidade α do TSH no sangue (útil para o diagnóstico diferencial) ocorre em pacientes com adenoma hipofisário secretor de TSH.

Gravidez molar, coriocarcinoma e hiperêmese gravídica causam concentrações elevadas de gonadotrofina coriônica humana (hCG) sérica, um estimulante fraco da tireoide. As concentrações de hCG são mais elevadas no primeiro trimestre da gravidez e resultam em redução do TSH e discreta elevação do T4 livre, observada algumas vezes nessa ocasião. O aumento do estímulo à tireoide pode ser causado por elevação das concentrações de hCG dessializada, uma variante de hCG que parece ser um estimulante tireoidiano mais potente que a hCG mais sializada. O hipertireoidismo na gravidez molar, no coriocarcinoma e na hiperêmese gravídica é transitório; a função tireoidiana volta ao normal quando se esvazia a gravidez molar, quando se trata de modo adequado o coriocarcinoma ou quando cessa a hiperêmese gravídica.

Hipertireoidismo autossômico dominante não autoimune manifesta-se na infância. Resulta de mutações do gene do receptor do TSH que produz estímulo contínuo da tireoide.

Bócio uni ou multinodular tóxico (doença de Plummer) às vezes resulta de mutações do gene do receptor de TSH, produzindo estímulo contínuo da tireoide. Pacientes com bócio nodular tóxico não apresentam as manifestações autoimunes ou os anticorpos circulantes observados na doença de Graves. Além disso, em contraste com a doença de Graves, bócios uninodulares ou multinodulares habitualmente não entram em remissão.

Doença inflamatória da tireoide (tireoidite) inclui tireoidite granulomatosa subaguda, tireoidite de Hashimoto e tireoidite linfocítica silenciosa, uma variante da tireoidite de Hashimoto ( Tireoidite linfocítica silenciosa). O hipertireoidismo resulta de alterações destrutivas na glândula e liberação de hormônios armazenados, e não do aumento de síntese. A seguir, pode ocorrer hipotireoidismo.

Hipertireoidismo induzido por drogas pode resultar da amiodarona e interferona-α, que podem induzir tireoidite com hipertireoidismo e outras disfunções tireoidianas. Apesar de mais comumente causar hipotireoidismo, o lítio pode, poucas vezes, causar hipertireoidismo. Os pacientes que utilizam essas drogas devem ser monitorados rigorosamente.

Tireotoxicose factícia é o hipertireoidismo resultante da ingestão excessiva acidental ou consciente de hormônios tireoidianos.

Excesso de ingestão de iodo causa hipertireoidismo com baixa captação de I131. Ocorre com mais frequência em pacientes com bócio nodular não tóxico subjacente (em especial em pacientes idosos) que recebem drogas que contêm iodo (p. ex., amiodarona, expectorantes que contêm iodo) ou que são submetidos a exames radiológicos com contraste rico em iodo. A etiologia pode ser o excesso de iodo fornecendo substrato para áreas de tireoide funcionalmente autônomas (p. ex., que não estão sob controle do TSH) produzirem hormônios. O hipertireoidismo geralmente persiste enquanto o excesso de iodo permanece na circulação.

Câncer de tireoide metastático é uma causa possível. A produção excessiva de hormônios tireoidianos ocorre raramente em decorrência de carcinoma folicular metastático, em especial nas metástases pulmonares.

Struma ovarii se desenvolve quando teratomas ovarianos contêm quantidades suficientes de tecido tireoidiano para causar hipertireoidismo verdadeiro. A captação de I131 ocorre na pelve e a captação da tireoide está suprimida.

Fisiopatologia

No hipertireoidismo, as concentrações séricas de T3 habitualmente se elevam mais que as de T4, provavelmente em razão de aumento de secreção de T3 e da conversão de T4 em T3 nos tecidos periféricos. Em alguns pacientes, apenas o T3 está elevado (toxicose por T3). A toxicose por T3 pode ocorrer em qualquer das doenças habituais que produzem hipertireoidismo, incluindo doença de Graves, bócio multinodular e nódulo único funcionante autônomo. Se a toxicose por T3 não for tratada, o paciente habitualmente desenvolve anormalidades laboratoriais típicas do hipertireoidismo (i. e., T4 e captação de I123 elevados). As várias formas de tireoidites comumente apresentam uma fase de hipertireoidismo seguida de uma fase de hipotireoidismo.

Sinais e sintomas

A maioria dos sinais e sintomas é a mesma, independentemente da causa. As exceções incluem oftalmopatia infiltrativa e dermopatia, que ocorrem apenas na doença de Graves.

Pérolas e armadilhas

  • Pacientes idosos podem ter sintomas mais parecidos com depressão ou demência.

A apresentação clínica pode ser dramática ou sutil. Pode haver presença de bócio ou nódulo. Vários sinais e sintomas comuns de hipertireoidismo são semelhantes aos de excesso adrenérgico, como nervosismo, palpitações, hiperatividade, aumento de sudorese, hipersensibilidade ao calor, fadiga, aumento de apetite, perda de peso, insônia, fraqueza e aumento da frequência de movimentos intestinais (ocasionalmente diarreia). Pode haver hipermenorreia. Os sinais podem incluir pele quente e úmida, tremores, taquicardia, alargamento da pressão de pulso, fibrilação atrial e palpitações.

Pacientes idosos, em particular aqueles com bócio nodular tóxico, podem apresentar sintomas atípicos (hipertireoidismo apático ou mascarado) com sintomas mais parecidos com depressão ou demência. A maioria não apresenta exoftalmo ou tremores. Fibrilação atrial, síncope, alterações sensoriais, insuficiência cardíaca e fraqueza são mais prováveis. Os sinais e sintomas podem envolver apenas um sistema orgânico.

Os sinais oculares incluem olhar arregalado, hiperemia conjuntival leve, retardo e retração palpebral, e decorrem, em grande parte, do excesso de estimulação adrenérgica. Em geral, há remissão com tratamento bem-sucedido. A oftalmopatia infiltrativa, uma evolução mais grave, é específica da doença de Graves e pode ocorrer anos antes ou depois do hipertireoidismo. Caracteriza-se por dor orbital, lacrimejamento, irritação, fotofobia, aumento de tecido retro-orbital, exoftalmia e infiltração linfocitária dos músculos extraoculares, provocando fraqueza da musculatura ocular que, com frequência, causa visão dupla.

Dermopatia infiltrativa, também denominada mixedema pré-tibial (um termo confuso, pois mixedema sugere hipotireoidismo), caracteriza-se por infiltração sem depressão por substâncias basais proteicas, em geral na área pré-tibial. Raramente ocorre na ausência de oftalmopatia de Graves. A lesão habitualmente é pruriginosa e eritematosa nos estágios iniciais e, em seguida, se torna acastanhada. A dermopatia infiltrativa pode surgir anos antes ou depois do hipertireoidismo.

Tempestade tireotóxica

A tempestade tireotóxica, uma forma aguda de hipertireoidismo, resulta de hipertireoidismo grave não tratado ou tratado de forma inadequada. É rara, ocorrendo em pacientes com doença de Graves ou bócio multinodular tóxico (nódulo tóxico único é menos comum e, em geral, menos grave). Pode ser precipitada por infecção, trauma, cirurgia, embolia, cetoacidose diabética ou pré-eclâmpsia. A tempestade tireotóxica produz sintomas abruptos de hipertireoidismo, com uma ou mais das seguintes manifestações: febre, fraqueza significativa e desgaste muscular, inquietação extrema com alterações emocionais, confusão, psicose, coma, náuseas, vômitos, diarreia e hepatomegalia, com icterícia leve. O paciente pode apresentar colapso cardiovascular e choque. A tempestade tireotóxica é uma emergência que coloca a vida em risco e requer tratamento imediato.

Diagnóstico

  • TSH

  • T4 livre, além de ou T3 livre ou T3 total

  • Às vezes, captação de I131

O diagnóstico se baseia em história, exame físico e exames de função tireoidiana. A concentração sérica de TSH é o melhor exame, pois o TSH é suprimido em doentes hipertireoidianos, exceto no caso raro de a etiologia ser um adenoma hipofisário secretor de TSH ou resistência hipofisária aos hormônios tireoidianos. Rastrear determinadas populações quanto à concentração de TSH é permitido ( Visão geral da tireoide : Exames de laboratório da função tireoidiana). O T4 livre está aumentado no hipertireoidismo. Entretanto, o T4 pode ser falsamente normal no hipertireoidismo verdadeiro em pacientes com doenças sistêmicas graves (similar às falsas concentrações reduzidas que ocorrem na síndrome do doente eutireoidiano) e na toxicose por T3. Se a concentração de T4 livre for normal e o TSH for baixo em paciente com sinais e sintomas sutis de hipertireoidismo, deve-se medir a concentração sérica de T3 para detectar a toxicose por T3; uma concentração elevada confirma esse diagnóstico.

Em geral, a causa pode ser diagnosticada clinicamente (p. ex., exposição a droga, presença de sinais específicos de doença de Graves). Se não for o caso, a captação de I131 pode ser obtida com I123. Quando o hipertireoidismo decorre da produção excessiva de hormônios, a captação de I131 pela tireoide costuma estar elevada. Quando o hipertireoidismo é decorrente de tireoidite, ingestão de iodo ou produção ectópica de hormônios, a captação de iodo radioativo é baixa.

Os anticorpos do receptor de TSH podem ser medidos para detectar doença de Graves, mas a medida raramente é necessária – exceto durante o terceiro trimestre da gravidez, para avaliar o risco de doença de Graves neonatal; os anticorpos do receptor de TSH atravessam prontamente a barreira placentária e estimulam a tireoide fetal. A maioria dos pacientes com doença de Graves apresenta anticorpos antitireoperoxidase circulantes e poucos apresentam anticorpos antitireoglobulina.

A secreção inapropriada de TSH é rara. O diagnóstico é confirmado quando ocorre hipertireoidismo com concentrações elevadas de T4 e T3 livres e TSH normal ou elevado.

Se houver suspeita de tireotoxicose factícia, pode ser medida a tireoglobulina sérica, que habitualmente é normal ou de baixa a normal – diferente de todas as outras causas de hipertireoidismo.

Tratamento

O tratamento depende da causa, mas pode incluir

  • Metimazol ou propiltiouracila

  • β-bloqueadores

  • Iodo

  • Captação de I131

  • Cirurgia

Metimazol e propiltiouracila

Essas drogas antitireoidianas bloqueiam a peroxidase tireoidiana, diminuindo a organificação de iodo, e alteram a reação de acoplamento. A propiltiouracila em altas doses também inibe a conversão periférica de T4 em T3. Cerca de 20 a 50% dos pacientes com doença de Graves permanecem em remissão após 1 ou 2 anos de tratamento com qualquer uma das drogas. O retorno ao normal ou a diminuição significativa do tamanho da glândula, a restauração das concentrações normais de TSH sérico e o hipertireoidismo menos grave antes do tratamento são bons sinais prognósticos para remissão a longo prazo. A utilização concomitante de tratamento antitireoidiano e levotiroxina não melhora a taxa de remissão em pacientes com doença de Graves. Como o bócio nodular tóxico raramente sofre remissão, o tratamento com drogas antitireoidianas é administrado apenas no preparo para tratamento cirúrgico ou com I131.

Em virtude da insuficiência hepática grave em alguns pacientes < 40 anos, especialmente crianças, a propiltiouracila só é recomendada hoje em situações especiais (p. ex., no 1º trimestre de gravidez, na exacerbação dos sintomas da tireoide). Metimazol é a droga preferida. A dose inicial habitual de metimazol é de 5 a 20 mg, VO, 3 vezes/dia; a de propiltiouracila, 100 a 150 mg, VO, a cada 8 h. Quando se normalizam os níveis de T4 e T 3 , a dosagem é reduzida para a menor quantidade eficaz, geralmente 5 a 15 mg de metimazol, 1 vez/dia, ou 50 mg de propiltiouracil, 3 vezes/dia. Habitualmente, obtém-se o controle em 2 a 3 meses. Controle mais rápido pode ser obtido com o aumento da dose de propiltiouracila para 150 a 200 mg a cada 8 h. Essas doses ou doses mais altas (até 400 mg a cada 8 h) são geralmente reservadas para pacientes gravemente doentes, incluindo aqueles com crise tireotóxica, para bloquear a conversão de T4 em T3. Doses de manutenção de metimazol podem ser mantidas por um ou vários anos, dependendo das circunstâncias clínicas. Carbimazol, amplamente utilizado na Europa, é rapidamente convertido a metimazol. A dose inicial é similar à do metimazol; a dose de manutenção é de 5 a 20 mg, 1 vez/dia, 2,5 a 10 mg, 2 vezes/dia, ou 1,7 a 6,7 mg, 3 vezes/dia.

Os efeitos adversos incluem rash, reações alérgicas, função hepática anormal (incluindo insuficiência hepática com propiltiouracila) e, em cerca de 0,1% dos pacientes, agranulocitose reversível. Pacientes com alergia a uma das drogas podem tê-la substituída por outra, mas pode ocorrer sensibilidade cruzada. Se ocorrer agranulocitose, o paciente não pode trocar a medicação, devendo-se utilizar outra modalidade de tratamento (p. ex., I131, cirurgia).

Cada droga apresenta vantagens e desvantagens. O metimazol precisa ser administrado apenas 1 vez/dia, o que melhora a adesão ao tratamento. Além disso, quando o metimazol é utilizado em doses inferiores a 40 mg/dia, a agranulocitose é menos comum; com propiltiouracila, a agranulocitose pode ocorrer com qualquer dosagem. O metimazol foi utilizado com sucesso em mulheres grávidas e amamentando, sem complicações para o feto ou para o bebê, mas foi, poucas vezes, associado com defeitos gastrointestinais ou no couro cabeludo em recém-nascidos e com uma rara embriopatia. Em virtude dessas complicações, a propiltiouracila é usada no primeiro trimestre de gravidez. A propiltiouracila também é preferível para o tratamento de crise tireotóxica porque a dosagem utilizada (800 a 1.200 mg/dia) bloqueia, em parte, a conversão periférica de T4 em T3.

A combinação de alta dose de propiltiouracila e dexametasona, também um potente inibidor da conversão de T4 em T3, pode aliviar os sintomas de hipertireoidismo grave e restabelecer as concentrações normais de T3 em uma semana.

β-bloqueadores

Sinais e sintomas de hipertireoidismo decorrentes de estímulo adrenérgico podem responder a β-bloqueadores; o propranolol é o mais utilizado, mas atenolol e metoprolol podem ser preferíveis.

Outras manifestações tipicamente não respondem.

  • Manifestações que tipicamente respondem a β-bloqueadores: taquicardia, tremor, sintomas mentais, retração palpebral; ocasionalmente, intolerância ao calor e sudorese, diarreia, miopatia proximal.

  • Manifestações que tipicamente não respondem a β-bloqueadores: consumo de O2, exoftalmo, bócio, sopros, concentrações circulantes de T4, perda de peso.

O propranolol é indicado para tempestade tireotóxica (ver Tratamento da tempestade tireotóxica). Reduz rapidamente a frequência cardíaca, em geral 2 a 3 h após administração VO e minutos após administração IV. O esmolol pode ser usado em UTI porque requer titulação e monitoramento cautelosos. O propranolol também é indicado para taquicardia com hipertireoidismo, em especial nos pacientes idosos, pois as drogas antitireoidianas demoram várias semanas para se tornar completamente eficazes. Os bloqueadores de canais de cálcio podem controlar as taquiarritmias em pacientes para os quais β-bloqueadores sejam contraindicados.

Iodo

O iodo, em doses farmacológicas, inibe a liberação de T3 e T4 dentro de horas e inibe a organificação de iodo, um efeito transitório que dura de alguns dias a uma semana, depois do qual a inibição habitualmente cessa. Iodo é utilizado para o tratamento de emergência da tempestade tireotóxica para pacientes com hipertireoidismo que serão submetidos à cirurgia de emergência não tireoidiana e (por também diminuir a vascularização da tireoide) para o preparo pré-operatório de pacientes com hipertireoidismo que serão submetidos à tireoidectomia subtotal. O iodo não costuma ser utilizado em tratamento de rotina de hipertireoidismo. A dose habitual é de duas a três gotas (100 a 150 mg) de solução de iodeto de potássio saturada, VO, 3 ou 4 vezes/dia, ou 0,5 a 1 g de iodeto de sódio em 1 l de solução fisiológica a 0,9%, IV, lentamente, por 12 h.

As complicações do tratamento com iodo incluem inflamação das glândulas salivares, conjuntivites e exantema.

Iodeto de sódio radioativo (I 131 , radioiodo)

Nos Estados Unidos, o I131 constitui o tratamento mais comum para hipertireoidismo. Costuma ser recomendado como tratamento de escolha para doença de Graves e bócio nodular tóxico em todos os pacientes, incluindo crianças. É difícil ajustar a dosagem de I131 porque a resposta da glândula não é previsível. Alguns médicos administram uma dose padrão de 8 a 10 mCi; outros ajustam a dose com base no tamanho estimado da tireoide e na captação de 24 h para fornecer uma dose de 80 a 120 μCi/g de tecido tireoidiano.

Quando se administra o I131 em dose suficiente para causar eutireoidismo, cerca de 25% dos pacientes passam a apresentar hipotireoidismo mais ou menos um ano mais tarde, e a incidência continua aumentando anualmente. Assim, a maioria dos pacientes eventualmente se torna hipotireoidiana. Entretanto, se forem utilizadas doses mais baixas, a incidência de recidiva é maior. Doses maiores, como 10 a 15 mCi, em geral causam hipotireoidismo em 6 meses.

O iodo radioativo não é utilizado durante a gravidez porque atravessa a placenta e pode causar hipotireoidismo fetal grave. Não há provas de que ele aumente a incidência de tumores, leucemia, câncer de tireoide ou defeitos de nascença em crianças nascidas de mães que engravidaram mais tarde na vida.

Cirurgia

Indica-se a cirurgia para pacientes com doença de Graves cujo hipertireoidismo tenha reincidido após tratamento com doses antitireoidianas e que se recusam a utilizar I131, pacientes que não toleram outras drogas, pacientes com bócios muito volumosos e alguns pacientes mais jovens com adenoma tóxico e bócio multinodular. A cirurgia pode ser realizada em pacientes idosos com bócios nodulares gigantes.

A cirurgia habitualmente restabelece a função tireoidiana normal. As recidivas pós-operatórias variam entre 2 e 16%; o risco de hipotireoidismo está diretamente relacionado com a extensão da cirurgia Paralisia das cordas vocais e hipoparatireoidismo são complicações pouco comuns. Solução saturada de iodeto de potássio, 3 gotas (cerca de 100 a 150 mg), VO, 3 vezes/dia, deve ser administrada por 10 dias antes da cirurgia para reduzir a vascularização da glândula. Também se deve administrar metimazol, pois o paciente deve estar eutireoidiano antes da administração de iodo. Pode-se adicionar dexametasona para restaurar rapidamente o eutireoidismo. Os procedimentos cirúrgicos são mais difíceis em pacientes que foram submetidos a tireoidectomias prévias ou a tratamento com I131.

Tratamento da tempestade tireotóxica

O esquema de tratamento para tempestade tireotóxica é mostrado na Tratamento da tempestade tireotóxica.

Tratamento da tempestade tireotóxica

Propiltiouracila: 600 mg, VO, administrados antes do iodo; depois, 400 mg a cada 6 h

Iodo: cinco gotas de solução saturada de iodeto de potássio, VO, 3 vezes/dia

ou

10 gotas de solução de Lugol, VO, 3 vezes/dia

ou

1 g de iodeto de sódio, lentamente, IV, gotejado em 24 h

Propranolol: 40 mg, VO, 4 vezes/dia

ou

1 mg lentamente IV, a cada 4 h (não exceder 1 mg/min) sob rigoroso monitoramento

Repetir a dose de 1 mg após 2 min, se necessário, ou esmolol

Solução de glicose IV

Correção da desidratação e do equilíbrio eletrolítico

Cobertura com resfriamento, para hipertermia

Drogas antiarrítmicas (p. ex., bloqueadores de canais de cálcio, adenosina, β-bloqueadores), se necessário, para fibrilação atrial

Tratamento de doença subjacente, como infecção

Corticoides: hidrocortisona, 100 mg, IV, a cada 8 h

ou

Dexametasona, 8 mg, IV, 1 vez/dia

Tratamento definitivo após controle da crise consiste em ablação da tireoide com I131 ou tratamento cirúrgico

Tratamento de dermopatia infiltrativa e oftalmopatia

Em dermopatia infiltrativa (na doença de Graves), corticoides tópicos ou injeções de corticoide nas lesões pode atenuar a dermopatia. Às vezes, a dermopatia remite espontaneamente após meses ou anos. Oftalmopatia deve ser tratada em conjunto por endocrinologista e oftalmologista e pode necessitar de selênio, corticoides, irradiação orbital e cirurgia.

Pontos-chave

  • O hipertiroidismo tem muitas causas, as quais podem envolver a estimulação excessiva de uma glândula tireoide normal (p. ex., por TSH, hCG, ingestão de iodo ou de iodo contendo drogas), a síntese excessiva de hormônios tireoidianos por uma tireoide anormal (p. ex., doença de Graves, alguns cânceres de tireoide) ou a síntese normal, mas liberação excessiva de hormônios tireoidianos (p. ex., decorrente de tireoidite).

  • Os sinais e sintomas são muitos e incluem taquicardia, fadiga, perda de peso, nervosismo e tremores; pacientes com doença de Graves também podem ter exoftalmia e dermopatia infiltrativa.

  • T4 livre e/ou T3 livre ou total estão elevadas e TSH está suprimido (exceto em casos mais raros de causas hipofisárias de hipertireoidismo).

  • Crise tireoidiana – resultando de hipertireoidismo grave não tratado ou tratado inadequadamente – é uma emergência que representa risco para a vida.

  • A síntese hormonal pode ser suprimida com metimazol (ou, em determinados casos, propiltiouracil) e os sintomas adrenérgicos podem ser aliviados com β-bloqueadores; tratamento de longo prazo pode requerer ablação da tireoide com iodo radioativo ou cirurgia.

Hipertireoidismo subclínico

O hipertireoidismo subclínico consiste na presença de baixas concentrações séricas de TSH em pacientes com concentrações normais de T4 e T3 livres e sintomas de hipertireoidismo ausentes ou mínimos.

O hipertireoidismo subclínico é muito menos comum que o hipotireoidismo subclínico ( Hipotireoidismo subclínico). Pacientes com concentrações séricas de TSH < 0,1 mU/l apresentam maior incidência de fibrilação atrial (em particular nos pacientes idosos), redução da densidade mineral óssea, aumento de fraturas e maior mortalidade. Pacientes com concentrações séricas de TSH apenas discretamente abaixo do normal têm menor probabilidade de apresentar essas características. Vários pacientes com hipertireoidismo subclínico estão utilizando levotiroxina; nesses pacientes, a redução da dose é o tratamento mais apropriado, a menos que o objetivo do tratamento seja manter o TSH suprimido em pacientes com câncer ou nódulos de tireoide. As outras causas de hipertireoidismo subclínico são as mesmas do hipertireoidismo clinicamente aparente.

Indica-se o tratamento para pacientes com hipertireoidismo endógeno subclínico (TSH sérico < 0,1 mU/l), em especial aqueles com fibrilação atrial ou redução da densidade mineral óssea. O tratamento habitual consiste em I131. Em pacientes com sintomas mais brandos (p. ex., nervosismo), um tratamento com drogas antitireoidianas é válido.

Recursos neste artigo