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Hipotireoidismo

(Mixedema)

Por Jerome M. Hershman, MD

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Hipotireoidismo é a deficiência de hormônio tireoidiano. É diagnosticado por meio de características clínicas, como fácies típica, fala lenta e voz grossa e pele seca, com baixas concentrações de hormônios tireoidianos. A abordagem inclui tratamento da causa subjacente e administração de T4.

O hipotireoidismo ocorre em qualquer idade, mas é particularmente comum em idosos. Acomete cerca de 10% das mulheres e 6% dos homens com mais de 65 anos. Embora o diagnóstico seja tipicamente fácil em adultos jovens, pode ser discreto e manifestar-se de forma atípica em idosos.

Hipotireoidismo primário

O hipotireoidismo primário decorre de doença na tireoide; o TSH é elevado. A causa mais comum é, provavelmente, autoimune. Habitualmente resulta de tireoidite de Hashimoto e, em geral, associa-se a bócio firme ou, mais tarde no processo da doença, à tireoide fibrótica diminuída, com pouca ou nenhuma função. A segunda causa mais comum é o hipotireoidismo pós-terapêutico, em especial após tratamento com I131 ou cirurgia para hipertireoidismo ou bócio. Hipotireoidismo durante o tratamento com excesso de propiltiouracila, metimazol e iodo desaparece após a suspensão do tratamento.

A maioria dos pacientes com bócio que não seja por tireoidite de Hasmimoto é eutireoidiana ou apresenta hipertireoidismo, mas hipotireoidismo com bócio pode ocorrer no bócio endêmico. A deficiência de iodo diminui a hormoniogênese tireoidiana. Em resposta, o TSH é liberado, provocando aumento da tireoide e captação ávida de iodo, causando, assim, o bócio. Se a deficiência de iodo for grave, o paciente torna-se hipotireoidiano, o que é raro nos Estados Unidos desde o advento do sal iodado.

A deficiência de iodo pode causar hipotireoidismo congênito. Em regiões do mundo com grave deficiência de iodo, o hipotireoidismo congênito (anteriormente denominado cretinismo endêmico) é a principal causa de deficiência intelectual.

Defeitos enzimáticos hereditários raros podem alterar a síntese de hormônios tireoidianos e causar hipotireoidismo com bócio ( Bócio congênito).

Hipotireoidismo pode ocorrer em pacientes que utilizam lítio, talvez pelo fato de o lítio inibir a liberação de hormônios pela tireoide. O hipotireoidismo também pode ocorrer em pacientes que utilizam amiodarona ou outras drogas que contenham iodo e em pacientes que utilizam interferon-α. O hipotireoidismo pode resultar de radioterapia para câncer de laringe ou linfoma de Hodgkin (doença de Hodgkin). A incidência de hipotireoidismo permanente após radioterapia é alta e a função da tireoide (por meio da medida do TSH sérico) deve ser avaliada em intervalos de 6 a 12 meses.

Hipotireoidismo secundário

O hipotireoidismo secundário ocorre quando o hipotálamo produz TRH insuficiente ou a hipófise produz TSH insuficiente. Às vezes, a secreção deficiente de TSH decorrente da deficiência de TRH é denominada hipotireoidismo terciário.

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas de hipotireoidismo primário são, em geral, discretos e insidiosos. Os sintomas podem incluir intolerância ao frio, constipação intestinal, esquecimento e alterações de personalidade. Modesto ganho de peso resulta, em grande parte, de retenção hídrica e diminuição do metabolismo. Parestesias das mãos e dos pés são comuns, em geral associadas à síndrome do túnel do carpo-tarso causada pela deposição de substâncias basais proteicas nos ligamentos ao redor dos punhos e tornozelos. Mulheres com hipotireoidismo podem apresentar menorragia ou amenorreia secundária.

A expressão facial é embotada; a voz é grossa e a fala é lenta; edema facial e periorbital decorrem da infiltração por mucopolissacarídios, ácido hialurônico e sulfato de condroitina; as pálpebras caem pela diminuição do estímulo adrenérgico; os cabelos são esparsos, ásperos e secos; a pele é áspera, descamativa e espessa. A fase de relaxamento dos reflexos tendinosos profundos é lenta. Hipotermia é comum. Demência ou psicose franca (loucura do mixedema) pode ocorrer.

A carotenemia é comum, observada em particular nas palmas das mãos e plantas dos pés, causada pela deposição de caroteno nas camadas epidérmicas, ricas em lipídios. A deposição de substância basal proteica na língua pode causar macroglossia. Redução tanto do hormônio tireoidiano como do estímulo adrenérgico causa bradicardia. O coração pode parecer aumentado ao exame e em imagens, em parte pela dilatação, mas principalmente pelo derrame pericárdico. Também se observa derrame pleural ou abdominal. Derrames pericárdico e pleural se desenvolvem de modo lento e apenas raramente causam desconforto respiratório ou hemodinâmico.

Pacientes idosos têm significativamente menos sintomas que os adultos jovens e as queixas costumam ser discretas ou vagas. Vários pacientes idosos com hipotireoidismo apresentam síndromes geriátricas não específicas – confusão, anorexia, perda de peso, quedas, incontinência e diminuição de mobilidade. Sintomas musculoesqueléticos (especialmente artralgias) são frequentes, mas artrite é rara. Dores musculares e fraqueza, em geral mimetizando polimialgia reumática ou polimiosite, e concentração elevada de CPK podem ocorrer. Em idosos, o hipotireoidismo pode mimetizar demência ou parkinsonismo.

Embora o hipotireoidismo secundário seja pouco comum, sua causa usualmente afeta outros órgãos endócrinos controlados pelo eixo hipotálamo-hipófise. Em mulheres com hipotireoidismo, os indicadores de hipotireoidismo secundário são história de amenorreia em vez de menorragia e algumas diferenças sugestivas ao exame físico. O hipotireoidismo secundário caracteriza-se por pele e cabelos secos, mas não muito ásperos, despigmentação da pele, macroglossia apenas mínima, mamas atróficas e pressão arterial baixa. Além disso, o coração é pequeno e não ocorrem derrames pericárdicos serosos. A hipoglicemia é comum em razão de insuficiência adrenal concomitante ou deficiência de hormônio de crescimento.

O coma mixedematoso

é uma complicação do hipotireoidismo que coloca a vida em risco, habitualmente ocorrendo em pacientes com longa história de hipotireoidismo. Suas características incluem hipotermia extrema (temperatura de 24 a 32,2oC), arreflexia, convulsões e depressão respiratória com retenção de CO2. Hipotermia grave pode não ser percebida, a menos que sejam utilizados termômetros para leituras baixas. É obrigatório o diagnóstico rápido com base em julgamento clínico, história e exame físico, pois a probabilidade de morte é alta se não houver tratamento rápido. Os fatores precipitantes incluem doenças, infecções, trauma, drogas que suprimem o SNC e exposição ao frio.

Diagnóstico

  • TSH

  • T4 livre

O TSH sérico é o exame mais sensível, e o rastreamento das populações é permitido ( Visão geral da tireoide : Exames de laboratório da função tireoidiana). No hipotireoidismo primário, não há inibição por feedback da hipófise e o TSH sérico está sempre elevado, ao passo que o T4 livre é baixo. No hipotireoidismo secundário, as concentrações de T4 livre e TSH são baixas (às vezes, o TSH é normal, mas com bioatividade reduzida).

Muitos pacientes com hipotireoidismo primário apresentam concentrações circulantes normais de T3, provavelmente em virtude do estímulo mantido do TSH sobre a tireoide deficiente, resultando em síntese preferencial e secreção do hormônio biologicamente ativo T3. Consequentemente, o T3 sérico não é um exame sensível para hipotireoidismo.

Anemia é frequente, em geral normocítica-normocrômica e de etiologia desconhecida, mas pode ser hipocrômica, em razão da menorragia, e às vezes macrocítica, em virtude de anemia perniciosa associada ou de absorção reduzida de ácido fólico. A anemia raramente é grave (Hb geralmente > 9 g/dl). Na medida em que se corrige o estado hipometabólico, a anemia desaparece, às vezes tomando de 6 a 9 meses.

As concentrações de colesterol sérico são habitualmente altas no hipotireoidismo primário, mas menos no hipotireoidismo secundário.

Além de hipotireoidismo primário e secundário, outras condições podem causar a redução das concentrações de T4 total, como deficiência de TBG sérica, algumas drogas ( Hipotireoidismo primário) e síndrome do doente eutireoidiano ( Tireoidite de Hashimoto).

Tratamento

  • Levotiroxina, ajustada até que as concentrações de TSH estejam de médias a normais

Preparações de diversos hormônios tireoidianos estão disponíveis para a terapia de reposição, incluindo preparações sintéticas de T 4 ( levotiroxina), T3 (liotironina), combinações dos dois hormônios sintéticos e extrato de tireoide desidratada animal. Levotironina é preferível; a dose de manutenção usual é de 75 a 150 μg, VO, 1 vez/dia, dependendo da idade, do índice de massa corporal e da absorção ( Tratamento para doses pediátricas). A dose inicial em pacientes jovens ou de meia-idade que são saudáveis pode ser 100 μg ou 1,7 µg/kg, VO, 1 vez/dia.

No entanto, nos pacientes idosos e nos portadores de doença cardíaca, a terapia é iniciada com doses baixas, geralmente 25 μg, 1 vez/dia. A dose é ajustada a cada 6 semanas, até atingir a dose de manutenção. Esta pode precisar ser reduzida em pacientes idosos e aumentada em mulheres grávidas. A dose também deve ser aumentada se drogas que reduzem a absorção de T4 ou aumentam sua excreção biliar forem administradas em concomitância. A dose utilizada deve ser a menor capaz de restaurar as concentrações de TSH para valores médio-normais (embora esse critério não possa ser utilizado em pacientes com hipotireoidismo secundário). No hipotireoidismo secundário, a dose de levotiroxina deve atingir T4 livre na faixa médio-normal.

Liotironina não deve ser utilizada isoladamente na reposição a longo prazo, em razão de sua meia-vida curta e dos grandes picos séricos de T3 que produz. A administração de quantidades-padrão de reposição (25 a 37,5 μg, 2 vezes/dia) resulta em rápida elevação do T3 sérico para valores entre 300 e 1.000 ng/dl (4,62 a 15,4 nmol/l) dentro de 4 h, em razão de sua absorção quase completa; essas concentrações voltam ao normal em 24 h. Além disso, pacientes que recebem liotironina são quimicamente hipertireoidianos por várias horas ao dia, o que aumenta potencialmente o risco cardíaco.

Padrões similares de T3 ocorrem quando misturas de T3 e T4 são ingeridas VO, embora o pico de T3 seja menor em decorrência da menor quantidade de T3 administrada. Esquemas de reposição com preparados sintéticos de T4 refletem um padrão diferente de resposta sérica de T3. Os aumentos de T3 sérico ocorrem de forma gradual e as concentrações normais são mantidas quando se administram doses adequadas de T4. Preparados de tireoide dissecada de animais contêm quantidades variáveis de T3 e T4 e não devem ser prescritos a menos que o paciente esteja estável com esse preparado, mantendo comcentração normal de TSH sérico.

Em pacientes com hipotireoidismo secundário, não se deve administrar levotiroxina até que haja evidências de secreção adequada de cortisol (ou administração de tratamento com cortisol), pois a levotiroxina pode precipitar uma crise adrenal.

O coma mixedematoso

é tratado com:

  • T4 IV

  • Corticoides

  • Terapia de apoio, conforme necessário

  • Conversão para T4 oral quando o paciente estiver estável

Os pacientes requerem uma grande dose inicial de T4 (300 a 500 μg, IV) ou T3 (25 a 50 μg, IV). A dose de manutenção de T4 é de 75 a 100 μg, IV, 1 vez/dia, e T3, 10 a 20 μg, 2 vezes/dia, até que T4 possa ser administrada VO. Corticoides também são administrados, pois a possibilidade de hipotireoidismo central não pode ser excluída inicialmente. O paciente não deve ser reaquecido de forma muito rápida, pois isso pode precipitar hipotensão e arritmias. Hipoxemia é comum; assim, a PaO2 deve ser monitorada. Se houver comprometimento ventilatório, é necessária ventilação mecânica imediata. O fator precipitante deve ser tratado de modo rápido e adequado e a reposição cuidadosa de líquidos deve ser administrada com cuidado, pois pacientes com hipotireoidismo não excretam água adequadamente. Por fim, todas as drogas devem ser administradas com cautela, por serem metabolizadas de modo mais lento que em indivíduos saudáveis.

Pontos-chave

  • O hipotireoidismo primário é o mais comum; decorre de doença na tireoide, e os níveis de TSH são altos.

  • O hipotireoidismo secundário é menos comum; decorre de doença da hipófise ou do hipotálamo, e os níveis de TSH são baixos.

  • Os sintomas se desenvolvem insidiosamente e, em geral, incluem intolerância ao frio, constipação intestinal e alterações cognitivas e/ou de personalidade; mais tarde, o rosto fica inchado e a expressão facial inerte.

  • O coma mixedematoso é uma complicação que coloca a vida em risco e requer diagnóstico e tratamento rápidos.

  • O nível de tireoxina livre (T4 ) é sempre baixo, mas T3 pode permanecer normal no início de alguns distúrbios.

  • TSH sérico é o melhor teste de diagnóstico, devendo-se realizar triagem em determinadas populações (p. ex., idosos), pois a doença é muito sutil e insidiosa.

  • T4 (levo-tiroxina) oral é o tratamento preferido, administrado na dose mais baixa que restaura os níveis de TSH ao intervalo médio-normal.

Hipotireoidismo subclínico

O hipotireoidismo subclínico é a elevação do TSH sérico em pacientes com sintomas ausentes ou mínimos de hipotireoidismo e concentrações séricas normais de T4 livre.

A disfunção de tireoide subclínica é relativamente comum; ocorre em aproximadamente 15% das mulheres idosas e 10% dos homens idosos, em particular naqueles com tireoidite de Hashimoto subjacente.

Em pacientes com TSH sérico superior a 10 mU/l, é grande a probabilidade de progressão para hipotireoidismo evidente com concentrações baixas de T4 livre nos 10 anos seguintes. Esses pacientes também são mais propensos a hipercolesterolemia e aterosclerose. Eles devem ser tratados com levotiroxina, mesmo se forem assintomáticos. Para pacientes com concentrações de TSH entre 4,5 e 10 mU/l, tratamento com levotiroxina é razoável se houver sintomas de hipotireoidismo inicial (p. ex., fadiga, depressão). Tratamento com levotiroxina também é indicado para mulheres grávidas e que querem engravidar, a fim de evitar os efeitos deletérios do hipotireoidismo sobre a gravidez e o desenvolvimento fetal. Pacientes que não são tratadas devem realizar medidas anuais de TSH e T4 livre para avaliar a evolução da condição se não estiverem sendo tratadas ou para ajuste da dose de levotiroxina.

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